Em presença de hematúria, devemos excluir, primeiramente, causas transitórias de hematúria como: exercício vigoroso, infecção do trato urinário, intercurso sexual, trauma, toque retal, medicações (amino glicosídeos, amitriptilina, analgésicos, aspirina, anticonvulsivantes, clorpromazina, diuréticos, contraceptivos orais, penicilinas, varfarina).
Caso não se encontre justificativa de causa transitória, o exame qualitativo de urina (EQU) deverá ser repetido com intervalo de 4 a 8 semanas e solicitada cultura de urina. Hematúria não glomerular caracteriza-se por eritrócitos urinários isomórficos, com tamanho uniforme e morfologia semelhante às encontradas na circulação sanguínea.
A hematúria é um dos sinais clínicos mais comum, sendo responsável por mais de 20% das avaliações urológicas. É definida por um número de glóbulos vermelhos urinários (hemácias), igual ou maior que 3 hemácias por campo de alta potência (HPF).
A microscópica pode ser caracterizada como isolada, intermitente ou persistente. Pode também ser classificada com base em sua origem: glomerular, urológica ou ambas. O médico deve realizar uma história e exame físico para avaliar os fatores de risco para malignidade geniturinária, doença renal médica, causas geniturinárias ginecológicas e geniturinárias não malignas de micro hematúria.
Os fatores de risco para neoplasia são idade acima de 60 anos, sexo masculino, história de tabagismo, grau e persistência de micro hematúria. Câncer de próstata é menos prevalente do que o câncer de bexiga em indivíduos com macro e micro hematúria, porém mais prevalente do que o câncer de rim em indivíduos com micro hematúria.
A presença de eritrócitos dismórficos e cilindros eritrocitários pode sugerir patologia glomerular subjacente, como a glomerulonefrite proliferativa, nefropatia por IgA, vasculite associada ao anticorpo anticitoplasma de neutrófilo (ANCA) ou nefrite lúpica.
Os sinais reconhecidos de lesão glomerular são os cilindros de hemácias ou hemácias dismórficas, em particular, acantócitos (hemácias em forma de anel com bolhas salientes), considerados marcadores específicos para lesões glomerulares. Valores superiores a 20% de hemácias dismórficas e/ou de mais 5% de acantócitos no sedimento urinário são considerados como positivo para lesão glomerular.
Na Atenção Primária à Saúde (APS), é essencial que os profissionais estejam capacitados para realizar a avaliação inicial da hematúria microscópica persistente, distinguindo entre causas transitórias, glomerulares e não glomerulares. A investigação deve ser realizada com base na anamnese, exame físico e exames simples, como o Exame de Urina Tipo I com pesquisa de dismorfismo eritrocitário e cultura de urina. O reconhecimento precoce de sinais sugestivos de lesão glomerular permite o encaminhamento oportuno ao nefrologista, enquanto as causas não glomerulares podem, muitas vezes, ser manejadas ou acompanhadas na própria APS, com apoio do urologista conforme o caso. A adequada organização do processo de coleta, envio e análise da urina, conforme as boas práticas laboratoriais, é fundamental para garantir a confiabilidade dos resultados. Essa abordagem contribui para a resolutividade do cuidado e evita encaminhamentos desnecessários, otimizando o uso dos recursos do SUS e garantindo continuidade do cuidado no território.
Bibliografia Selecionada
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