O tratamento medicamentoso da deficiência de ferro e anemia por deficiência de ferro – ADF, também chamada de anemia ferropriva, é feito com suplementação de ferro, sendo que a administração oral é conveniente, barata e efetiva em pacientes estáveis. Em pacientes sem resposta ao tratamento oral por intolerância, perdas que excedem a reposição ou doenças que contraindicam o uso oral de ferro, a administração de ferro intravenoso (IV) está indicada. O ferro IV é considerado uma opção terapêutica útil quando há necessidade de rápida reposição. As contraindicações de uso de ferro IV são: anemia não relacionada à deficiência de ferro, saturação de transferrina > 45%, ferritina > 500 ng/mL, infecção ativa/septicemia, disfunção hepática ou cardíaca grave e gestação no primeiro trimestre de gravidez. Em crianças, a reposição parenteral de ferro é recomendada em casos excepcionais como os de hospitalização por anemia grave após falha terapêutica do tratamento oral, necessidade de reposição de ferro por perdas sanguíneas, doenças inflamatórias intestinais, quimioterapia ou diálise, ou após cirurgias gástricas com acometimento do intestino delgado. Em mulheres com sangramento uterino anormal, as preparações de ferro intravenoso são indicadas para o tratamento da deficiência de ferro em doenças inflamatórias crônicas, situações perioperatórias, em casos de necessidade de reposição mais vigorosa para perdas crônicas, pacientes intolerantes à reposição oral ou com processos disabsortivos. Em pacientes com Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção Reduzida, a ferropenia está associada com pior classe funcional e maior risco de morte e diversos estudos apontam melhora de sintomas e de qualidade de vida desses pacientes com tratamento com ferro parenteral.
A deficiência de ferro é uma condição em que a quantidade de ferro é insuficiente para manter as funções fisiológicas normais, podendo ser resultado de ingesta insuficiente, diminuição da absorção, aumento da demanda ou perda excessiva. A primeira fase de depleção de ferro caracteriza-se pela diminuição das reservas sem anemia e a fase mais grave se apresenta com anemia com hemácias microcíticas e hipocrômicas. Estima-se que 2 bilhões de pessoas em todo o mundo apresentem anemia por deficiência de ferro e que 27% a 50% da população seja afetada por deficiência de ferro. Considera -se ferropenia absoluta como ferritina < 100mg/L, e ferropenia funcional como ferritina 100-299 mg/L e saturação de transferrina (TSAT) <20%. A anemia ferropriva é a mais comum de todas as anemias, sendo responsável por 60 por cento dos casos de anemia no mundo. Acomete todos os grupos etários e níveis sociais, principalmente crianças e mulheres pré-menopausa. É considerada um sério problema de Saúde Pública, pois causa fraqueza, mau desempenho laboral, diminuição da qualidade de vida, podendo levar a efeitos irreversíveis no desenvolvimento mental e psicomotor, comprometimento da imunidade e diminuição da capacidade intelectual das crianças e dos adultos afetados.
A anemia ferropriva na infância chega a atingir até metade da população de menores de 2 anos. Os profissionais de saúde devem estar atentos para a relevância e abrangência clínica que a anemia representa nesta faixa etária, para prevenir as consequências de longo prazo da deficiência de ferro nestas crianças.
Sangramento uterino anormal é uma queixa muito frequente e que afeta negativamente a qualidade de vida das mulheres. A investigação para deficiência de ferro e anemia ferropriva é obrigatória nessas pacientes. As principais causas são Pólipos, Adenomiose, Leiomioma, hiperplasia e tumores malignos, coagulopatias e disfunção endometrial e da ovulação.
A deficiência de ferro é uma importante comorbidade na insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida estável. A geração insuficiente e utilização anormal de ferro nas células musculares esquelética e cardíaca contribuem para a fisiopatologia da insuficiência cardíaca. Recomenda-se, quando necessário, a reposição férrica endovenosa para melhora de sintomas, capacidade de exercício físico e qualidade de vida e diminuição de hospitalizações para estes pacientes.
O ferro tem um papel fundamental no transporte de oxigênio por meio da hemoglobina e armazenamento de oxigênio por parte da mioglobina, nas células musculares esquelética e cardíaca. O ferro armazenado no fígado, medula óssea e baço encontra-se na forma de ferritina, considerada a principal proteína de reserva do ferro. Uma vez que excesso de ferro pode ser tóxico, a absorção intestinal pelo duodeno é limitada a 1 a 2 mg por dia e a maior parte do ferro necessário (em torno de 25 mg/dia) é provido pela reciclagem de macrófagos que fagocitam as hemácias senescentes. Estes dois mecanismos são controlados pelo hormônio hepcidina, com o objetivo de manter o ferro total corporal, evitando a deficiência ou o excesso.
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